segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

GRAFITE



Nessa semana, apareceu na nossa TL o "prefeito" de São Paulo em uma saga para "limpar" São Paulo.


A vida imita a arte, não é mesmo? Lembrei-me desse conto do Homo Sapiens Erectus (livro que você pode comprar aqui). Abaixo, o texto na íntegra e também o link para você baixar o pdf do conto.


A ilustração ao final, inspirada no conto Grafite, é do talentosíssimo Ezidras Farinazzo, que serviu de divulgação para o lançamento do livro.




GRAFITE


São Paulo havia se tornado um ponto de convergência do olhar dos mais antenados. Política, ciência, religião, entretenimento, dinheiro. Em 2028, podia-se afirmar com uma margem mínima de erro que em cada outra cidade do mundo havia um coração, pelo menos um, sedento de estar na capital do mundo.

Benjamim Machado, governador do município, gozava de uma ótima reputação ao redor do globo, e alguns suplementos de economia e negócios comparavam seu poder de influência ao do presidente do Brasil himself. Em seus oito anos no poder, Benjamim impressionou a todos com sua versatilidade para administrar projetos e imprevistos das mais diversas naturezas. Logo que assumiu o governo do município, reuniu-se com sua equipe de prefeitos e secretários e tratou de ganhar a simpatia e o apoio de todos. Investiu pesado em salários e tecnologia a fim de aparatar o aparelho governamental com as melhores mentes e ferramentas. Destacou-se publicamente por suas habilidades de lidar com a imprensa e, sem dúvida, de organizar sua agenda, pois era um político onipresente: estava em congressos, batizados, reuniões deliberativas do partido, peças de teatro, grupos de estudo, organizações não governamentais, jantares em família e, pode parecer incrível, comparecia a todos os seus compromissos de trabalho.

Estar nas graças de Benjamim Machado garantia a qualquer cidadão um status diferenciado. Sua secretária pessoal vivia lhe dizendo que um dia confeccionaria um broche com os seguintes dizeres: “Benjamim Machado sabe quem eu sou!” Ele ria do bom humor da secretária, a vaidade às vezes é engraçada.

Emílio Leite era um desses agraciados. Era o Secretário para Manutenção da Ordem Pública, que não era o mais importante dos cargos, mas seu bom relacionamento com Benjamim, que transcendia o campo profissional, fazia-lhe alvo da admiração e da inveja dos mais ambiciosos. Como Benjamim não era casado, nem tinha irmãos ou primos mais chegados, era sempre carente de companhias para eventos sociais, razão pela qual Emílio tornou-se figura de destaque, pois sempre acompanhava seu chefe nessas ocasiões. Ao apresentar seu subordinado, Benjamim não dispensava apostos elogiosos: “Este é Emílio Leite, Secretário para Manutenção da Ordem Pública, responsável pelos grandes avanços feitos para o bem-estar dos paulistanos nos últimos anos, um grande amigo meu”. Às vezes tocava na questão, no que viria a ser a delicada questão, mas que antes era apenas outra forma de acariciar o ego de Emílio. “Ele é também o responsável por limpar nossas ruas e monumentos. Quem poderia imaginar que São Paulo não teria mais pichações? Pois este homem não só imaginou esse cenário como o transformou em realidade. É a competência em pessoa!”

A campanha para dar cabo das pichações foi uma das primeiras ideias que Benjamim prontamente assumiu quando se tornou governador. Para ele, a empreitada sugerida por Emílio seria uma ótima forma de relembrar a todos os habitantes da cidade, diariamente, da força de sua obstinação. Para obter êxito nessa façanha, Emílio recebeu carta branca para mobilizar o poder legislativo, o poder judiciário, a polícia militar, a polícia civil, a associação comercial, o serviço de fiscalização, o departamento de limpeza pública e, principalmente, ficou subentendido para todos que as ordens dadas por Emílio representavam a vontade do governador. Em dois anos de esforços contumazes, novas leis foram criadas, muitas sugestões ouvidas, muitos protestos ignorados. Pichadores receberam suas sentenças, e as ONG’s mais bem intencionadas ganharam seus prêmios. Em dois anos, não havia pichações em São Paulo. Tudo limpo: pontes, prédios, portas, passarelas, placas, propriedades públicas ou privadas; tudo limpo!

“(...) E por essa conquista, essa conquista significativa não só para o nosso bem-estar, mas que nos serve como exemplo daquilo que pode ser realizado quando se tem vontade política, a Câmara Municipal e o Conselho Superior de Administração convidam o Sr. Emílio de Souza Leite para receber o título de Cidadão Benemérito da Cidade de São Paulo.”

O Arquivo Histórico do Município até publicou, em 2042, mais de uma década após os mandatos de Benjamim Machado, um material com fotos e vídeos do período em que a cidade permanecera limpa. Além do rico conteúdo em imagens, o produto disponível para vendas continha um livreto que narrava a campanha de Benjamim e Emílio – do começo ao fim.

Algumas semanas após aquela gloriosa noite em que foi laureado com o título de Cidadão Benemérito, quando Benjamim ainda era governador, Emílio Leite recebeu uma ligação alarmada de um dos funcionários de seu gabinete, informando-lhe sobre uma pichação no obelisco do Ibirapuera.

“Estou aqui?”
“É, só isso mesmo. Mas tem uma exclamação no final.”
“Estou aqui com uma exclamação?”
“É.”
“E a letra, o estilo? É de alguém conhecido?”
“Não. Na verdade é muito simples, bem amador. Poderia ter sido qualquer iniciante.”
“Chamou muita atenção?”
“Muita. Era muito grande. Mas eu já tomei todas as providências.”

Imediatamente foram acionados os responsáveis pela limpeza e pela investigação do delito. Contudo, só os primeiros obtiveram sucesso em sua missão.De posse das fotos feitas pelo seu pessoal, Emílio tentava explicar a situação a Benjamim.

“Foi só esse caso isolado.” argumentou Emílio, com o claro objetivo de não super-dimensionar o problema.
“Mas o que isso significa? ‘Estou aqui!’ É uma mensagem? É uma ameaça? Provocação?”
“Eu acho que pode ter a ver mais com uma resistência dos pichadores... não acho que tenha alguma conotação política mais grave.”
“É verdade. Isso parece coisa de baderneiro, de rebelde!”
“Sem dúvida.”

A conversa foi encerrada não sem alguma reticência. Nas semanas que se seguiram, Emílio experimentou dias de ansiedade e noites de insônia. Apesar da incisiva vigilância e dos avanços nas investigações, apareceram outras pichações como aquela primeira. No Masp, no Viaduto do Chá, na Catedral da Sé, na Estação da Luz, no Teatro Municipal, no Intervalo, no Pacaembu. Em pontos turísticos, em rotas conhecidas, em enormes letras rabiscadas com spray preto: Estou aqui!

“Como não descobriram ainda?”, Benjamim pressionava Emílio.
“Não descobriram.”
“Mas é o mesmo pichador?”
“Sobre isso não há dúvida. É o mesmo traço, o mesmo spray.”
“Isso é ridículo! Eliminamos milhares de pichadores dessa cidade e agora um espertalhão está fazendo todo mundo de idiota! Não é possível que não possam descobrir onde foi vendido o spray, ou que nenhuma câmera de segurança tenha imagens do momento da pichação! Para ser sincero, é impossível que, com tanta vigilância, ele tenha conseguido pichar justamente os lugares mais bem guardados!”
“Ele dá conta de tudo! Câmeras, seguranças, vestígios...”, Emílio admitia com um pouco de relutância a maestria do meliante.

Os esforços na busca do tal pichador continuaram, sem sucesso, por longos oito meses. Enquanto isso, a solução foi deixar um time de limpeza sempre de prontidão para desfazer o mal-feito. O que não foi possível de controlar foi a repercussão de toda a história na mídia e nas conversas informais.

“Você sabe o prejuízo político dessas pichações? Sabe o prejuízo político da sua incompetência, Emílio?”, as palavras de Benjamim tinham a intenção de feri-lo.
“Eu sei. Nós não desistimos de encontrar o pichador e...”
“A quem você está enganando, Emílio? O cara está fazendo gato e sapato de você e de toda a sua equipe, não está vendo?”

É claro que Emílio estava vendo. Viu também sua relação com Benjamim se desgastar a ponto de não se falarem nem nos encontros do governador com os prefeitos e secretários. Havia dias que acordava com raiva do pichador misterioso, com raiva de si mesmo, com raiva de Benjamim. Quando era ignorado por todos, que reproduziam o comportamento do governador, tinha vontade de gritar: Estou aqui! Sentia-se até um pouco vingado por aquele que transformara sua vida no inferno com aquelas palavras. Por fim, não aguentou tanta pressão, renunciando a seu cargo e também ao seu prestígio.

Menos de um mês após entregar sua carta de renúncia, Emílio foi acordado por seu telefone pessoal, que soava o toque reservado apenas para o governador. Não estava enganado, era mesmo Benjamim Machado que o chamava.

“Emílio?”
“Sim, sou eu. Algum problema?”
“Você pode vir aqui em casa?”
“Agora?”, Emílio estranhou o pedido feito às cinco da manhã.
“Se for possível.”

Emílio apressou-se em trocar de roupa e dirigiu em disparada rumo à casa de Benjamim. O outro já o esperava e, ao ouvir o motor do carro em frente à casa, abriu o portão da garagem para que Emílio entrasse. Os dois se cumprimentaram e, sem explicar muito, Benjamim conduziu Emílio até os fundos, onde ficavam a área de lazer, a quadra de tênis e a piscina.

Logo que chegaram ao deck da piscina, Emílio pôde entender o chamado do governador. No grande muro que separava sua propriedade da conseguinte, no enorme muro de pedras cinzas, havia um lírio amarelo. Ou melhor, havia sido pintado um lírio amarelo, com suas variações de tons e outros detalhes feitos em verde, preto e alaranjado. Se Emílio não conhecesse bem a casa e o gosto de Benjamim, poderia jurar que ele mesmo encomendara o serviço a um profissional.

“Desde quando está aí?”
“Foi feito durante a madrugada. Quando eu cheguei, às onze, não estava aí.”
“Acho que devemos chamar a polícia”, Emílio já empunhava o telefone.
“Não! Acho melhor não!”

Benjamim não precisou explicar a Emílio para que ele entendesse que chamar a atenção para o lírio amarelo no muro, naquele momento, era um exemplo da gestação de mais um possível prejuízo político. Depois de algum silêncio, cada um pensando no que fazer, Benjamim surpreendeu Emílio com sua pergunta.

“Você achou bonito?”
“O quê?”
“O lírio? Você não achou bonito?”

Emílio pensou de imediato que a pergunta poderia ser um teste, mas sua desconfiança foi se dissipando à medida que via Benjamim mudando a cabeça de posição para melhor apreciar a pintura.

“Não se pode dizer que é o trabalho de um amador...”, respondeu Emílio.
“Eu achei esplêndido!”
“Definitivamente não é o trabalho de um amador.”, ratificou Emílio.
“Como se chama essa técnica mesmo?”
“Grafite. Foi muito popular no início do século.”
“As cores são tão vibrantes! O lírio parece vivo!”, Benjamim deu um suspiro. “Eu adoro flores amarelas! Pensando bem, eu acho que adoro lírios amarelos, em especial.”

Emílio evitou entrar nas divagações de Benjamim. Não sabia onde ele estava querendo chegar.

Mudando de tom, Benjamim voltou-se para Emílio.

“Você sabe o que isso significa?”
“O lírio amarelo?”
“Não o lírio amarelo em si, mas a pichação?”
“Não exatamente.”
“Significa que agora há dois pichadores afrontando minha autoridade. Significa que o prejuízo político pode ser incalculável se não tomarmos as providências cabíveis. Significa que temos que agir rápido. Significa que você deve reassumir seu cargo para enfrentarmos essa ameaça juntos.”
“Reassumir a Secretaria?”
“Imediatamente. E mande apagar esse lírio amarelo antes que amanheça. Mantenha a imprensa longe disso.”

Em poucas semanas, São Paulo floresceu. Brotaram lírios amarelos nos lugares mais inusitados da capital do mundo. E logo lírios brancos, alaranjados, lilases. E logo rosas, orquídeas, margaridas. A cidade parecia um jardim. As cores dos grafites se multiplicavam em flores, rostos, palavras e manifestos. Foi breve o tempo até que os espaços vazios fossem preenchidos pela criatividade dos pichadores, cada um a sua maneira, dizendo: Estou aqui!

Benjamim e Emílio indignavam-se com o retrocesso – e com o prejuízo político – mas, quando já não estavam mais no poder, não podiam deixar de olhar para os muros e monumentos com outro olhar. Ainda criticavam o sem sentido que é rabiscar palavras incompreensíveis, revoltavam-se com a falta de respeito à propriedade pública ou alheia, assustavam-se com a quantidade de desenhos espalhados pela paisagem.

Porém, às vezes, somente às vezes, admiravam algumas obras de arte saídas de sprays, nascidas de uma resistência antiga.


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GRAFITE
[Ezidras Farinazzo para o Homo Sapiens Erectus]


domingo, 26 de junho de 2016

POSIÇÃO




O mundo é comandado por um milhão de homens maus, dez milhões de estúpidos e cem milhões de covardes decretou Abdul Ghani em seu perfeito sotaque inglês de Oxford, enquanto lambia vestígios do bolo de mel dos dedos curtos e grossos. Os homens maus detêm o poder: são os ricos, os políticos, os fanáticos religiosos. E suas decisões dominam o mundo e o põem em sua trilha de ganância e destruição. 

(Gregory David Roberts in Shantaram)



O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.

(Martin Luther King Jr.)







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domingo, 1 de maio de 2016

TEMPO [mim mesmo + Borges]




DOM
Ulisses Belleigoli


A alegria do alívio se misturava ao cansaço de quem ficou a semana inteira em estado de alerta. Uma semana pode ser uma eternidade para quem não sabe onde está, e cada um sabe diferente sobre o tempo que se passa entre dois domingos.





O LABIRINTO
Jorge Luis Borges

Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.




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sábado, 30 de abril de 2016

des-compassos-entendimentos-amor [Renata de Aragão Lopes]


Esses dias eu andei meio de coração partido. E a poesia é sempre uma ótima conselheira nesse momento. Para espanar a mágoa e o orgulho. A Renata de Aragão Lopes é uma das minhas poetisas preferidas e escreveu alguns bonitos versos sobre as brigas de amor. Os poemas abaixo podem ser encontrados no livro "Doce de lira - poesia à mesa". 






M'ÁGUA

ele falou sem pensar. e a magoou.
ela pensou sem querer. e se trancou.
a moça
tranca mágoas
no fundo de si.

ele quis se desculpar. e a abraçou.
ela desculpou. e não sorriu.
a moça magoada
nem mesmo abraçada
sorri.

moça
tem coração-poço.
moço
tem coração-poça.
o poço é profundo,
a poça é rasa.
a moça represa,
o moço vaza.
ele seca,
ela alaga.

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SOBRAS

eu tenho ficado
com o cansaço,
o sumo
que sobrou no bagaço,
o resumo
riscado,
o trocado,
o farelo.
por que
se mereço
tanto?
quer sol quem dá amarelo.
quer som quem oferece o canto.
quer colo quem divide a cama
quer amor quem ama.

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B.O.

estou de poucas palavras:
tramela.
a-penas
algumas vogais
escapam das celas.
abertas,
elas gritam ao mundo
o que me cala:
queria um coração
à prova de balas.


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conheça o blog e a fanpage do DOCE DE LIRA


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sábado, 23 de abril de 2016

Canção de mim mesmo [Walt Whitman]



CANÇÃO DE MIM MESMO
[Folhas de Relva]

47 (trecho)



Sou o professor de atletas,
Aquele que graças a mim tem seu torso avantajado, mais que o meu, prova a largura de meu torso,
Aquele que mais honra meu estilo é o que aprende com ele a destruir o professor.

O rapaz que amo torna-se um homem, não por algum poder emprestado, mas por mérito próprio,
Antes iníquo que virtuoso por conformidade ou medo,
Afetuoso por sua namorada, saboreando bem o seu bife,
Amor não correspondido ou desprezo ferem-no mais que aço afiado,
Primeira classe para cavalgar, lutar, bater nos olhos do búfalo, navegar um esquife, cantar uma canção ou tocar banjo,
Preferindo as cicatrizes e a barba e os rostos manchados pela varíola a todas as espumas,
E os bem bronzeados a aqueles que se mantêm longe do sol.

Ensino que se desviem de mim, contudo quem pode se desviar de mim?




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quinta-feira, 31 de março de 2016

VAI TER GOLPE?





VAI TER GOLPE?



Sou um cara de esquerda. Talvez o que chamam de “extrema esquerda”. Desses que nunca vai desistir de colocar a reforma agrária na pauta. Se você me chamar de comunista, eu vou achar é bom. Digo isso para que não haja dúvidas sobre minhas inclinações políticas.


Mas não gosto da Dilma. Não gosto, nem confio no Lula; não mais. Já gostei e confiei, já usei broche e cantei “Lula-lá”. Contudo, a decepção com sua política e com sua desfaçatez enojaram-me a ponto de eu não ter estômago nem para ouvi-lo falar. O PT foi um desapontamento também, envolvido em tanta corrupção; mas ainda respeito o partido que, nas pequenas e médias cidades do Brasil, como a minha (Juiz de Fora/MG), reúne pessoas trabalhadoras e honradas, as quais lutam – diariamente – por um país melhor. Digo isso para que não me tomem, nunca mais, por um aliado desse nosso governo atual.


Dito isso, acho que não preciso gastar meu latim aqui para descrever a polarização política que tem acontecido no país, nem minha irritação com ela. Discussões entre a “direita” e a “esquerda” (atenção às aspas) já fazem parte da chatice nossa de cada dia. Uma baboseira sem fim. Por isso, vou focar-me em outra polarização, entre dois grupos muito mais bem definidos e muito mais importantes: 1) o dos que têm poder e fazem uso dele; e 2) o dos que têm poder mas abrem mão de usá-lo. No primeiro grupo estão esses personagens tão adorados pelas redes sociais: Dilma, Aécio, Cunha, Lula, PSDB, PMDB, PT, Odebrecht, Globo, etc. No segundo, estão os outros 99,9% dos brasileiros, inclusive eu e você. Mas aqueles primeiros nos representam, certo? Eu é que lhe pergunto: representam você?


Vislumbrar essa polarização nos ajuda a perceber que: “nós” não somos do mesmo grupo que “eles”. Que a briga deles é para ver quem vai ficar no poder, o qual eles não querem compartilhar conosco. Já provaram que fazem absurdos só pra ficar no comando. Eles não ligam pra nós. Não ligam, mesmo. Olha aqui no meu olho e ouve o que eu estou lhe dizendo, meu amigo: ELES NÃO FUCKING LIGAM PARA VOCÊ!





Então agora eu posso introduzir o meu real assunto: a democracia, que, como aprendemos na escola, quer dizer: o poder do povo. Hoje é 31 de março, dia triste na história do Brasil. O aniversário do golpe. Vivemos mais de 20 anos de ditadura. Foi feio. Não podemos fingir que não foi. Nosso país ficou na mão de líderes cruéis e, pior, refém de interesses estrangeiros. De gente com grana e covardia suficientes para deixar um rastro de sangue e vergonha para nossa nação. Mas lutamos (e perdemos muitos queridos nessa luta), e a democracia foi reconquistada. Não podemos abrir mão dela.



Vai ter golpe? Não vai ter golpe? Vamos zelar para que não. Todos nós. Esquece um pouco essa coisa de “direita” e “esquerda” (até porque você nem entende isso muito bem, né?), e pensa comigo: você gosta da democracia. Dá um trabalhão? Dá sim, para todos nós. É perfeita? Não. Nem nós. Porém, só se você for cego é que não vai ver que, nesses últimos 30 anos, desde o início do processo de redemocratização, nossa vida melhorou muito.


Não gosto do Sarney, nem do Collor (do Itamar, eu gosto), nem do FHC, nem do Lula, nem da Dilma. Mas não vou negar que, durante esse tempo, o país progrediu. E não foi por causa deles. Foi por nossa causa. Nós, o povo, que trabalhamos muito para que esse país fosse ficando melhor, para que conquistas há muito tempo sonhadas se tornassem realidade. Eu e você: nós. Eles podem até ter ajudado aqui e acolá, mas foi pouco. Mais nos atrapalharam com seus jogos de poder e interesses privados. Fomos nós que fizemos esse país andar para frente e crescer, em um ambiente democrático.


Agora, a notícia bombástica(?): há uma tentativa de golpe em andamento. Ela está sendo anunciada pela voz dos intelectuais brasileiros, dos intelectuais estrangeiros, noticiada pela mídia no mundo todo. Quem está interessado nesse golpe são, mais uma vez, o capital estrangeiro e os ricos e poderosos aqui do nosso quintal. E, não sejamos ingênuos, quem está na linha de frente, articulando esse movimento perverso, é a atual oposição, ou seja, a direita. Poderia, como em outros países e outros momentos, ser a esquerda, que já deu golpes por aí também, mas não. No Brasil atual, o golpe é um projeto da direita.


O golpe de 64 não foi só militar. Foi civil e militar. Muitos civis apoiaram. Papelão. Ignorando quem os manipulava, sustentaram aqueles que os oprimiriam por 20 anos. Só tem saudade desse tempo que não o viveu, ou quem estava no poder na época, ou quem é idiota. Uma conjuntura parecida está de novo armada. Por conta de uma polarização falaciosa entre “direita” e “esquerda”, uma parcela expressiva da sociedade civil tem se deixado levar pela ideia de que derrubar esse atual governo – mesmo que desrespeitando as regras democráticas e as instituições que custamos tanto para erguer coletivamente – vai ser um bom negócio. Mas não vai, porque, desse jeito, a democracia estará ameaçada.


Ou não...


Então está bom do jeito que está? Não, todos sabemos. Mas já foi pior, já evoluímos um pouco. E, creio, se quisermos, ficará melhor. O mundo inteiro está de olho no Brasil. Se nós conseguirmos continuar em nosso caminho democrático, que não significa apenas eleger os nossos políticos com voto direto e universal, mas também oferecer – como Estado – saúde, educação, oportunidades de trabalho e uma qualidade de vida decente para todos os cidadãos, vai ser um fato inédito para um país tão grande como o nosso. Os outros povos estão todos atentos para ver se seremos capazes dessa proeza. Alguns torcem por nós; outros querem nos derrubar. Isso mesmo: há quem queira ver o Brasil se autodestruir e que ainda vai ganhar muito dinheiro com isso.


E somos eu e você, meu caro, que temos que lutar novamente pra que isso não aconteça. Nós, o tal grupo que TEM PODER, mas não está sabendo usá-lo. Não é a Dilma que vai fazer isso por nós. Nem o Aécio. Nem o Moro. Porque esses são aqueles, do outro grupo, dos que não ligam para nós.


Hoje, muitos levantarão suas vozes pela democracia nas ruas; outros, como eu, o farão assim, nas redes sociais. Outros, de maneira tão importante quanto: trabalhando, em suas rotinas, para ganhar com retidão o pão de cada dia. No entanto, o mais importante é que possamos fazer isso juntos. Em uma conversa. Con-versar. Versar junto. Conversa é quando um fala, e o outro ouve; e vice-versa. Há concordâncias e discordâncias. E é assim que nascem as boas ideias, novas ideias, novas possibilidades. Temos que inventar possibilidades.


E não deixemos nos enganar: só poderemos fazer isso em um Estado Democrático e, também, se nos comportarmos como um povo democrático. A democracia não é perfeita, em lugar nenhum. Mas gosto dela porque ela tem o “cheirinho” da liberdade. E liberdade é assim mesmo, assusta. Não troquemos, portanto, nossas ainda tímidas liberdades – conquistadas a duras penas – pela tirania de pessoas que não se importam conosco. Isso não cabe mais. Não nesse momento da nossa história.


A pergunta do título não é especulativa, ou de simples valor retórico. Vai ter golpe? Vamos respondê-la: NÃO VAI TER GOLPE. Nós não merecemos. Nós não queremos.


Optemos por nossa democracia (ainda em construção). Fiquemos ao lado do povo (ainda em luta). Trabalhemos – e conversemos – honestamente por um país melhor.







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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A menina e a fruta [Adélia Prado]



Outro dia cheguei à conclusão de que a Adélia Prado é a escritora que mais me influenciou na vida. Ideias e palavras. Poderia fazer um post com dezenas de seus poemas, pois há versos que me encantam espalhados por toda sua obra. Mas, hoje, bateu-me este. Que ele faça as honras.



A MENINA E A FRUTA

Um dia, apanhando goiabas com a menina,
ela baixou o galho e disse pro ar
- inconsciente de que me ensinava -
'goiaba é uma fruta abençoada'.
Seu movimento e rosto iluminados
agitaram no ar poeira e Espírito:
o Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar à fome de alegria!



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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

QUERO ABRIR PRESENTES [mim mesmo]



QUERO ABRIR PRESENTES



esforço-me para não cair da vida

tento palavras
mas elas se abrem
como navalhas
          há sangue
nos meus textos
          lidos
          escritos
          profetizados

os futuros e os homens
espremem
minha esperança e eu finjo que não há covardia nos corações

respiro fundo
porque acredito nos conselhos antigos
choro
ergo a cabeça
trabalho

canto!



(escrito no dia 21/10/15, pouco antes da chegada de Marty McFly)




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sábado, 10 de outubro de 2015

MAIS PAIS [mim mesmo]



MAIS PAIS


(setembro/2015)



A quentura dos cearenses
fresca com meu sotaque:
— esse menino tem a rebeldia do "i"

"Ele feiz arroiz proceis" — temperamos!
"Tá na bêra da pratelêra da geladêra" — economizamos!

Hoje, neste mar salgado,
tive saudade da desenvoltura de minha mãe:
"que que você quer jantar?"
... mas... é meu pai que me faz
bobó, tutu e purê: tudo bem macio.

As ondas ecoam a antecipação da voz de meu pai:
"que que você quer da vida?"
... mas... é minha mãe que me ajuda
com os livros, as roupas e as contas do mês.

Eu tento dizer-lhes "obrigado!"
... mas às vezes grito minhas mágoas.

Em Minas,
os "is" acrescentam pingos.
Não há "mas"; dizemos "mais".

O sol da tarde
agita a água da Praia do Futuro,
uma luta:
Fortaleza!
... mas o vento morno abre minhas defesas
e minha memória:
Liberdade!

Em Minas,
minha mãe e meu pai
não cessam de me dar presentes.

Um alívio me acalma o espírito:
"amanhã volto para casa!"

Em Minas,
quando dizemos "paz",
ouvimos: "pais".



O mar da Praia do Futuro - Fortaleza (CE)

domingo, 4 de outubro de 2015

A mão esquerda da escuridão [Ursula K. Le Guin]


Cada vez mais, tenho associado os escritores de ficção científica aos grandes contadores de histórias do nosso tempo. No ano passado, fiquei meio assombrado quando comecei a ler a saga do Ender, de Orson Scott Card. E, agora, pela primeira vez, li um livro da Ursula Le Guin. Que preciosidade! Um sopro de vida, de vigor, de possíveis novos caminhos! "A mão esquerda da escuridão" fez tanto por mim que nem sei explicar.

Eu poderia indicar a leitura desse livro indiscriminadamente. Mas não. A travessia dessa história é feita sobre gelo, sem ajuda das sombras, com o vento cortante e a fome a consumir as esperanças. O único auxílio vem do amor, vem do humano. Se você acha que isso é suficiente, então a recomendação está feita!



TRECHO DA INTRODUÇÃO
(A mão esquerda da escuridão, de Ursula Le Guin)


A ficção científica não prevê: descreve.

Previsões são feitas por profetas (de graça); por videntes (que em geral cobram um honorário e, portanto, são mais respeitados em sua época o que os profetas); e por futurólogos (assalariados). Previsões são trabalhos de profetas, videntes e futurólogos. Não são trabalho de romancistas. O trabalho do romancista é mentir.

A meteorologia diz como irá ser a próxima terça-feira, e a Rand Corporation diz como vai ser o século 21. Não recomendo que você procure essas informações com escritores de ficção científica. Eles não têm nada a ver com isso. Tudo o que tentam fazer é dizer como eles são, como você é - o que está acontecendo - como está o tempo agora, hoje, neste momento, a chuva, o sol, olhe! Abra os olhos; ouça, ouça.




terça-feira, 2 de dezembro de 2014

RESPEITO É BOM... E EU GOSTO!



RESPEITO É BOM... E EU GOSTO!
(publicado originalmente na Chicundum – 2º semestre/2014)

Ulisses Belleigoli



No Brasil, os homossexuais já podem se casar, as “paradas gays” fazem parte do calendário das grandes cidades do país, e o Nico e o Félix se beijaram na novela.

Olhando por esse ângulo, pode até parecer que há um progresso natural e inabalável na questão da diversidade sexual, mas todos sabemos que não é bem assim. O avanço da discussão dos direitos LGBT acendeu a fúria de conservadores, de religiosos e de covardes, envergonhando nossa nação, colocando o Brasil em um lugar desconfortável: somos o país que mais mata homossexuais no mundo. São mais de 300 mortes por ano, quase uma por dia.


O que fazer então para mudar esse cenário, para que nosso país respeite os homossexuais?

Acredito que, talvez, derrubar alguns mitos sobre a sexualidade seja de extrema importância. Sugiro começarmos por esses dois:

“Sou bem resolvido com a minha sexualidade!”
Mentira. É nada. Ninguém é. Não importam sua idade, sua orientação sexual, seu nível de escolaridade, suas crenças religiosas, nem mesmo seu discurso sobre sua própria sexualidade: você não é bem resolvido! Isso porque a sexualidade não é algo a ser resolvido. Não é equação, nem briga no pátio do colégio. A sexualidade é para ser vivida – experimentada – todos os dias. Favor não confundir “sexualidade” e “orientação sexual”. A sexualidade tem a ver com todos os nossos relacionamentos, tem a ver com quem somos. Por isso, um aviso: se você “resolveu” a sua sexualidade, pode fechar o caixão.

“Eu não tenho nada contra!”
Tem sim. Todos temos. Contra e a favor. A sexualidade do outro nos toca. A maneira como as pessoas ao nosso redor se relacionam tem o poder de nos inspirar e de nos indignar; podemos ser atraídos ou repelidos. Isso vale para todos os comportamentos, mas especialmente para o sexual. É a moça pudica que critica a “periguete”, é o rapaz “pegador” que debocha do namorado romântico. Muitas vezes, negar o outro é uma forma de nos afirmarmos, mas isso não é novidade para ninguém. Outro aviso (talvez uma dica): o que você sente em relação à sexualidade do outro diz mais sobre você do que sobre ele. Como cantou Fernando Pessoa: “o que vemos não é o que vemos, senão o que somos”.

E o que isso tem a ver com o respeito à comunidade LGBT?

Aí vai meu palpite, minha aposta: se pensarmos que a sexualidade dos outros (homossexuais ou não) sempre vai nos tocar, e se compreendermos que não precisamos resolver sexualidade nenhuma (nem a nossa, nem a de ninguém), teremos mais chances de um convívio harmônico.

Será mais fácil entender por que, às vezes, não gostamos ou aprovamos o comportamento sexual de alguém. Além disso, perceberemos que o nosso próprio comportamento (independente de qual seja ele) também tem efeito nos outros. E, mais importante, não seremos reféns de nossas impressões e preconceitos.

Desse modo, finalmente, poderemos ter a bela oportunidade de nos educarmos, guiados pelo conselho da nossa professora do maternal: “se quiser ser respeitado, respeite!”.






quarta-feira, 28 de maio de 2014

O amor não precisa de explicação








“Amar também é bom, porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação.”

(Rainer Maria Rilke)




De vez em quando, eu concordo com Rilke. Quando ele nos diz que o amor é difícil, acredito que todos nós entendemos sobre o que ele está falando. Abrir-se a um relacionamento, começar um relacionamento, levá-lo adiante e, por vezes, terminá-lo são experiências que exigem de nós habilidades de cuja existência nem suspeitamos. Mas, ainda assim, nós amamos! Escolhemos, dia após dia, amar. Mesmo sabendo que pode ser difícil, que pode dar errado, que podemos nos perder no desconhecido.

Como se não bastassem as vicissitudes do coração humano, que fazem do amor uma aventura um tanto quanto embaraçada, alguns têm de enfrentar ainda outros desafios. Refiro-me aos milhares de homossexuais (e toda a comunidade LGBT) espalhados pelo planeta. Embora estejamos no século XXI, em todo mundo – dos países mais liberais aos mais conservadores – gays, lésbicas, bissexuais e transexuais têm, diante de si, essa dupla missão: viverem seus amores e, ao mesmo tempo, resistirem ao ódio alheio.

Hoje, dia 17 de maio, é o Dia Internacional de Combate à Homofobia. Isso significa que, em diversos pontos do globo, estão acontecendo marchas, protestos e “beijaços”. Todas essas ações têm um objetivo muito claro: interceder por milhares de homossexuais que são vítimas de violência todos os dias. Do bullying nas escolas até torturas e homicídios, a homofobia tem muitas caras. Pode ser impetrada por estranhos, por colegas de trabalho, por instituições, e até mesmo pela lei (lembremo-nos, inclusive, que há países onde a homossexualidade é passível de pena de morte). E, pasmem, nosso título de campeão mundial já está garantido: o Brasil é líder disparado quando se fala em assassinatos de homossexuais.

Por isso, hoje, coloco a pergunta a você, meu leitor: amar já não dá trabalho suficiente? Você também não acha que é uma baita de uma sacanagem ficar perseguindo homossexuais, enquanto eles estão lá – como todos os seres humanos – se desdobrando para amar um outro alguém?

Imagine você se, a cada vez que você se apaixonasse, ou decidisse viver uma aventura amorosa, ou quisesse beijar alguém na balada, ou, ainda, que você decidisse se casar... imagine se, em todos esses momentos, um monte de gente viesse lhe cobrar uma explicação, ou, pior, apontassem-lhe o dedo e começassem a dissertar sobre “a homossexualidade”. Chato, né?

No entanto, ainda hoje, homens e mulheres (e crianças) muitas vezes têm de abdicar de seus sonhos, de suas vozes e de seus amores por viverem em ambientes hostis à homossexualidade. Mas, hoje, meu leitor, eu vou lhe fazer uma proposta: que tal se não tratássemos a homossexualidade como uma questão, como algo a ser entendido? E se, em vez de pensarmos que este é mais um dos “assuntos da pauta contemporânea”, assumíssemos o óbvio: que, quando estamos falando de sexualidade, estamos falando de amor – do bom, velho e incompreendido amor?

E se, nesse Dia Internacional de Combate à Homofobia, todos nós decidíssemos que a melhor maneira de aplacar a violência é abraçando o amor?

E se, apenas por um instante, deixássemos que nossa própria experiência nos soprasse aos ouvidos: “para amar, ninguém precisa – nem consegue – se explicar.”


Ulisses Belleigoli



p.s.: hoje, na minha cidade, o céu está tão azul que dá gosto de ver! Moro em Juiz de Fora, MG (a primeira cidade do Brasil a ter uma lei para proteger os homossexuais, a conhecida "Lei Rosa"). O dia lindo, a temperatura amena e o sol suave me dizem que hoje não é dia de entender. Que hoje nem mesmo é dia de apenas “aceitar”. Talvez hoje – hoje, amanhã e depois – seja dia amar.




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**para ler meus contos com temática gay, visite meu outro blog, o HOMO SAPIENS ERECTUS.

*para ler outros textos meus aqui neste blog, é só clicar logo aqui em baixo no marcador "ulisses".



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quinta-feira, 3 de abril de 2014

Orson Scott Card [sobre contar histórias]



Orador dos Mortos
(Orson Scott Card)

Trecho da Introdução

"Veja você, o trabalho de um contador de histórias não fica nada mais fácil conforme ele fica mais experiente, porque uma vez que ele tenha aprendido a fazer algo, ele não pode se entusiasmar com a ideia de fazer exatamente a mesma coisa outra vez – ou ao menos não a maioria de nós. Continuamos tentando alcançar a história que é difícil demais de se contar – e então nos forçamos a aprender como contá-la. Se formos bem-sucedidos, então talvez possamos escrever livros ainda melhores, ou pelo menos mais desafiadores, ou no mínimo não entediaremos a nós mesmos.


O perigo que me mantém um pouquinho assustado com todo livro que escrevo, contudo, é que com mais frequência do que o contrário, eu me esforçarei demais para tentar escrever uma história para a qual eu claramente não tenho o talento ou a habilidade necessária para escrever. Esse é o dilema que todo contador de histórias encara. É doloroso fracassar. Mas é ainda mais triste quando um contador de histórias desiste de seguir tentando."






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sábado, 16 de março de 2013

Sinceridade [Saramago]



"Como também vai sendo costume, foi muito louvada a minha sinceridade, mas, creio que pela primeira vez, esta insistência e esta unanimidade fizeram-me pensar se realmente existirá isso a que damos o nome de sinceridade, se a sinceridade não será apenas a última das máscaras que usamos, e, justamente por última ser, aquela que afinal mais esconde."

José Saramago, in Cadernos de Lanzarote






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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A missão do Filho [João 3:16-21]



Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguídas as suas obras. Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.


BÍBLIA SAGRADA
Livro de João, capítulo 3, versículos 16 a 21






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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Best of You [Foo Fighters] + [Boyce Avenue]





BEST OF YOU
Foo Fighters

I've got another confession to make
I'm your fool
Everyone's got their chains to break
Holding you
Were you born to resist?
Or be abused?

Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?
Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?

Or are you gone and on to someone new?

I needed somewhere to hang my head
Without your noose
You gave me something that I didn't have
But had no use
I was too weak to give in
Too strong to lose
My heart is under arrest again
But I'll break loose
My head is giving me life or death
But I can't choose
I swear I'll never give in
I refuse

Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?
Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?

Has someone taken your faith?
It's real, the pain you feel?
Your trust?
You must confess
Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?

Has someone taken your faith?
It's real, the pain you feel?
The life, the love you'd die to heal
The hope that starts
The broken heart
Your trust, you must confess

Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?
Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?

I've got a another confession, my friend
I'm no fool
I'm getting tired of starting again
Somewhere new
Were you born to resist or be abused?
I swear I'll never give in
I refuse

Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?
Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?

Has someone taken your faith?
It's real, the pain you feel?
Your trust?
You must confess

Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?
Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?





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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Esculturas [Bernardelli e Rodin]


Escultra é assim: tem que ver. Tem que ser um contato in loco. É uma forma de arte que sempre me surpreende. Abaixo, duas que me acompanham na memória. As quais pretendo rever. De perto.
Não consigo nem expressar o que senti quando vi, lá no Museu Mariano Procópio, o "Santo Estevão" do Rodolfo Bernardelli. Era criança. Fiquei rondando a escultura por um longo tempo. Marcou a minha vida. Voltei ao museu várias vezes para vê-lo, fiz trabalhos sobre ele, fui visitado por ele em meus sonhos. Como o museu está fechado há algum tempo, tenho sentido saudades.
LE TROIS OMBRES, Auguste Rodin.
Essa foi outra escultura de me paralisou.
 Ela é enorme e me impediu de seguir com minha programação naquele dia.
 Fiquei por ali, por perto, tentando não ir embora.





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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Obrigado, granberyenses!




Estive à frente da Associação dos Granberyenses por mais de 6 anos (2 mandatos). Participei de centenas de eventos. Porém, sempre que convocado a falar, o fazia de improviso. Mas como dizem por aí, "nunca é tarde demais!". Então, no meu último dia como presidente da Associação, decidi que escreveria meu discurso. Ei-lo aqui.

Estou postando-o hoje também como uma homenagem à minha amiga Cristina (que hoje faz anivesário), uma das grandes parceiras nessa empreitada.

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PASSAGEM DO CARGO DE PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS GRANBERYENSES

Noite da Saudade – 15 de setembro de 2012


“Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país.” A conhecida frase do presidente americano John Kennedy dispensa explicações. Lanço mão dessa referência para dar início à minha fala, pois ela é um chamado à responsabilidade social. No nosso país, muito se diz que “há que se investir em educação”, ou “a educação é a solução para se transformar esse país”, e por aí vai. Concordo com tudo isso. Mas a maior parte dos que dizem isso pouco faz pela educação. Na verdade, nosso povo trata suas escolas e professores com muito descaso e descrédito.

Mas isso é diferente no Granbery. Não só diferente. É o oposto. Prova disso é essa Associação, fundada há quase 90 anos. Por algum motivo – e cada um se pergunte qual – os ex-alunos saem do Granbery, mas continuam a participar da vida da escola. Essa instituição nos abriga hoje porque os milhares de alunos, professores e funcionários que por aqui passaram não a abandonaram nos momentos em que ela precisou de amparo. As conquistas do Granbery são as conquistas de uma comunidade que está dentro destes muros, mas que também está espalhada pelo mundo afora e que investe seu tempo, seu ânimo, seu trabalho, seu dinheiro, sua voz para transformar em realidade os sonhos de educação aqui alimentados. Isso é de arrepiar.

A história do Granbery nos conta que, nessa casa, há professores-educadores, alunos-educadores, funcionários-educadores, pais-educadores, amigos-educadores. Se você se encaixa na alcunha de “granberyense”, é porque você aceitou ser um educador. É como se as paredes granberyenses sussurrassem: “não pergunte o que o Granbery pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo Granbery, o que você pode fazer pela educação”. E nós, granberyenses, atendemos a esse chamado. Um chamado nada fácil.

E, num paradoxo poético, acabamos recebendo ainda mais do Granbery. Foi isso que experimentei. Quando me formei aqui como aluno, sentia-me devedor do Granbery, por tudo que ele havia me proporcionado. Tive a ilusão de que saldaria meu débito trabalhando como voluntário na Associação. Ledo engano. Assumir o cargo de presidente acabou me rendendo mais benefícios e aprendizados do que eu poderia imaginar. Impossível enumerá-los, mas vocês, que me acompanharam nesse percurso, sabem do que falo. Meti-me também a ser funcionário, professor... Resultado: agora minha conta é impagável. E que bem isso me faz! Dá-me a liberdade para ser grato sem reservas.

Por isso, hoje, me despeço do cargo de Presidente (mas não dos trabalhos da Associação) com um enorme OBRIGADO! Agradeço a vocês, de coração, pelo carinho com que fui recebido para liderar nossa comunidade e pelo apoio que sempre me foi oferecido, dentro e fora da instituição, por parte de alunos, professores, funcionários e dirigentes. Essa benevolência de amigos e desconhecidos mudou o curso da minha vida.

Peço licença para fazer alguns agradecimentos especiais, a pessoas que foram muito importantes nestes mais de seis anos à frente da Associação.

Agradeço aos meus mentores, Maria Helena e José Terror, que me ensinaram tanto sobre o Granbery e sobre a vida, que meus “obrigados” soariam poucos. Da razão à emoção, fui transformado pelo convívio com esse magnífico casal. Na pessoa deles, comprimento também todos os meus colegas de diretoria.

Agradeço ao meu amigo e ex-reitor do Granbery, Roberto Pontes da Fonseca, que sempre abriu as portas para a Associação dos Granberyenses, e pela confiança que depositou no meu trabalho, na minha palavra e em minhas ideias. Também à amiga Magda Vargas Chifarelli, com quem compartilhei muitas aflições e alegrias, e que, depois de tanto convívio, passei a enxergar como a grande mãe de todos que aqui trabalham. Meu agradecimento também à Profa. Elaine Lima de Oliveira, que tem nos acolhido e ouvido com tamanha generosidade.

Agradeço aos meus amigos Soraya Lopes e Ernesto Giudice, guardiões da nossa história, e que foram também meus guardiões. Aos meus amigos Gustavo Dore e Renata Prado, que me ajudaram a sonhar com um Granbery ainda maior; sonhos estes que me ajudam a continuar, hoje, trabalhando.

E também à minha família, por não me expulsar de casa e me mandar vir morar de vez aqui no Granbery.

Por fim, agradeço a três mulheres que, enquanto eu tentava me equilibrar no posto que me foi confiado, trabalharam duro, muito duro, para que a Associação continuasse caminhando.

A primeira é Anita Lira, nossa ex-aluna, que era secretária da Associação quando eu assumi a presidência. Nomeou-se (isso mesmo, por conta própria) AFE - Anitinha Fiel Escudeira, e foi isso que ela foi pra mim. Fiel e corajosa, ajudou-me a tomar decisões importantes, assumindo comigo riscos e angústias. Ensinou-me o que fazer em situações difíceis e, muitas vezes, o que não fazer.

A segunda é a Cristina Campos, nossa atual secretária. Se eu pudesse colocar todos os créditos que recebi pelo meu trabalho na Associação na conta de uma só pessoa, seria na da Cristina. Nossa ex-aluna, começou como voluntária e depois conquistou seu posto de funcionária da Associação. Com a exceção de minha mãe, foi a pessoa que mais me deu bronca na vida. Merecidas... às vezes. Cristina, eu não sei se conseguiria ter vencido esses seis anos sem você. Você me ensinou, sem palavras, com sua atitude, mais lições sobre lealdade, sobre perseverança e sobre amizade do que meus queridos livros e do que muitos conselhos bem intencionados. Mais do que isso, te agradeço porque quando todos nós fraquejamos, você, mesmo enfrentando problemas de todas as naturezas, com sua garra indescritível sustentou o trabalho da Associação dos Granberyenses. Dia após dia. Espero poder retribuir o tanto que você fez por mim e pelo Granbery.

A terceira é a Mariana Panisset, a quem tenho a honra de passar o cargo de presidente. Foi nossa aluna do colégio, da faculdade, voluntária, estagiária, funcionária e, sobretudo, uma apaixonada pelo Granbery. Mais do que uma colega de trabalho, foi uma companheira pra todas as horas. Especialmente agora, com sua disposição para assumir esse posto que tanto demanda de quem lhe ocupa. A Mariana, tão nova (será a mais nova a assumir o cargo de presidente), ainda me surpreende com seus conselhos sábios. Mariana, quando penso que, aos poucos, eu fui a convencendo a ser nossa presidente, penso também que este será o meu melhor presente para a Associação. Confio em você de olhos fechados e mãos atadas.

A vocês meus amigos granberyenses, espero que ouçam, em meio a tantos agradecimentos, a seguinte mensagem: há alguns trabalhos que podemos fazer sozinhos, mas que nos sairemos melhor se contarmos com os outros. E há ainda esse outro tipo de trabalho, que é a educação bonita que se vive aqui no Granbery, que não pode sequer existir senão com o esforço coletivo de pessoas como essas de quem acabei de falar.

Granberyenses (assim no plural)! Enquanto estivermos unidos, o Granbery será fonte de inspiração! Enquanto estivermos unidos, a educação brasileira terá onde depositar suas esperanças!

Eia, avante, granberyenses!

Obrigado!



Ulisses Belleigoli







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