quinta-feira, 31 de março de 2016

VAI TER GOLPE?





VAI TER GOLPE?



Sou um cara de esquerda. Talvez o que chamam de “extrema esquerda”. Desses que nunca vai desistir de colocar a reforma agrária na pauta. Se você me chamar de comunista, eu vou achar é bom. Digo isso para que não haja dúvidas sobre minhas inclinações políticas.


Mas não gosto da Dilma. Não gosto, nem confio no Lula; não mais. Já gostei e confiei, já usei broche e cantei “Lula-lá”. Contudo, a decepção com sua política e com sua desfaçatez enojaram-me a ponto de eu não ter estômago nem para ouvi-lo falar. O PT foi um desapontamento também, envolvido em tanta corrupção; mas ainda respeito o partido que, nas pequenas e médias cidades do Brasil, como a minha (Juiz de Fora/MG), reúne pessoas trabalhadoras e honradas, as quais lutam – diariamente – por um país melhor. Digo isso para que não me tomem, nunca mais, por um aliado desse nosso governo atual.


Dito isso, acho que não preciso gastar meu latim aqui para descrever a polarização política que tem acontecido no país, nem minha irritação com ela. Discussões entre a “direita” e a “esquerda” (atenção às aspas) já fazem parte da chatice nossa de cada dia. Uma baboseira sem fim. Por isso, vou focar-me em outra polarização, entre dois grupos muito mais bem definidos e muito mais importantes: 1) o dos que têm poder e fazem uso dele; e 2) o dos que têm poder mas abrem mão de usá-lo. No primeiro grupo estão esses personagens tão adorados pelas redes sociais: Dilma, Aécio, Cunha, Lula, PSDB, PMDB, PT, Odebrecht, Globo, etc. No segundo, estão os outros 99,9% dos brasileiros, inclusive eu e você. Mas aqueles primeiros nos representam, certo? Eu é que lhe pergunto: representam você?


Vislumbrar essa polarização nos ajuda a perceber que: “nós” não somos do mesmo grupo que “eles”. Que a briga deles é para ver quem vai ficar no poder, o qual eles não querem compartilhar conosco. Já provaram que fazem absurdos só pra ficar no comando. Eles não ligam pra nós. Não ligam, mesmo. Olha aqui no meu olho e ouve o que eu estou lhe dizendo, meu amigo: ELES NÃO FUCKING LIGAM PARA VOCÊ!





Então agora eu posso introduzir o meu real assunto: a democracia, que, como aprendemos na escola, quer dizer: o poder do povo. Hoje é 31 de março, dia triste na história do Brasil. O aniversário do golpe. Vivemos mais de 20 anos de ditadura. Foi feio. Não podemos fingir que não foi. Nosso país ficou na mão de líderes cruéis e, pior, refém de interesses estrangeiros. De gente com grana e covardia suficientes para deixar um rastro de sangue e vergonha para nossa nação. Mas lutamos (e perdemos muitos queridos nessa luta), e a democracia foi reconquistada. Não podemos abrir mão dela.



Vai ter golpe? Não vai ter golpe? Vamos zelar para que não. Todos nós. Esquece um pouco essa coisa de “direita” e “esquerda” (até porque você nem entende isso muito bem, né?), e pensa comigo: você gosta da democracia. Dá um trabalhão? Dá sim, para todos nós. É perfeita? Não. Nem nós. Porém, só se você for cego é que não vai ver que, nesses últimos 30 anos, desde o início do processo de redemocratização, nossa vida melhorou muito.


Não gosto do Sarney, nem do Collor (do Itamar, eu gosto), nem do FHC, nem do Lula, nem da Dilma. Mas não vou negar que, durante esse tempo, o país progrediu. E não foi por causa deles. Foi por nossa causa. Nós, o povo, que trabalhamos muito para que esse país fosse ficando melhor, para que conquistas há muito tempo sonhadas se tornassem realidade. Eu e você: nós. Eles podem até ter ajudado aqui e acolá, mas foi pouco. Mais nos atrapalharam com seus jogos de poder e interesses privados. Fomos nós que fizemos esse país andar para frente e crescer, em um ambiente democrático.


Agora, a notícia bombástica(?): há uma tentativa de golpe em andamento. Ela está sendo anunciada pela voz dos intelectuais brasileiros, dos intelectuais estrangeiros, noticiada pela mídia no mundo todo. Quem está interessado nesse golpe são, mais uma vez, o capital estrangeiro e os ricos e poderosos aqui do nosso quintal. E, não sejamos ingênuos, quem está na linha de frente, articulando esse movimento perverso, é a atual oposição, ou seja, a direita. Poderia, como em outros países e outros momentos, ser a esquerda, que já deu golpes por aí também, mas não. No Brasil atual, o golpe é um projeto da direita.


O golpe de 64 não foi só militar. Foi civil e militar. Muitos civis apoiaram. Papelão. Ignorando quem os manipulava, sustentaram aqueles que os oprimiriam por 20 anos. Só tem saudade desse tempo que não o viveu, ou quem estava no poder na época, ou quem é idiota. Uma conjuntura parecida está de novo armada. Por conta de uma polarização falaciosa entre “direita” e “esquerda”, uma parcela expressiva da sociedade civil tem se deixado levar pela ideia de que derrubar esse atual governo – mesmo que desrespeitando as regras democráticas e as instituições que custamos tanto para erguer coletivamente – vai ser um bom negócio. Mas não vai, porque, desse jeito, a democracia estará ameaçada.


Ou não...


Então está bom do jeito que está? Não, todos sabemos. Mas já foi pior, já evoluímos um pouco. E, creio, se quisermos, ficará melhor. O mundo inteiro está de olho no Brasil. Se nós conseguirmos continuar em nosso caminho democrático, que não significa apenas eleger os nossos políticos com voto direto e universal, mas também oferecer – como Estado – saúde, educação, oportunidades de trabalho e uma qualidade de vida decente para todos os cidadãos, vai ser um fato inédito para um país tão grande como o nosso. Os outros povos estão todos atentos para ver se seremos capazes dessa proeza. Alguns torcem por nós; outros querem nos derrubar. Isso mesmo: há quem queira ver o Brasil se autodestruir e que ainda vai ganhar muito dinheiro com isso.


E somos eu e você, meu caro, que temos que lutar novamente pra que isso não aconteça. Nós, o tal grupo que TEM PODER, mas não está sabendo usá-lo. Não é a Dilma que vai fazer isso por nós. Nem o Aécio. Nem o Moro. Porque esses são aqueles, do outro grupo, dos que não ligam para nós.


Hoje, muitos levantarão suas vozes pela democracia nas ruas; outros, como eu, o farão assim, nas redes sociais. Outros, de maneira tão importante quanto: trabalhando, em suas rotinas, para ganhar com retidão o pão de cada dia. No entanto, o mais importante é que possamos fazer isso juntos. Em uma conversa. Con-versar. Versar junto. Conversa é quando um fala, e o outro ouve; e vice-versa. Há concordâncias e discordâncias. E é assim que nascem as boas ideias, novas ideias, novas possibilidades. Temos que inventar possibilidades.


E não deixemos nos enganar: só poderemos fazer isso em um Estado Democrático e, também, se nos comportarmos como um povo democrático. A democracia não é perfeita, em lugar nenhum. Mas gosto dela porque ela tem o “cheirinho” da liberdade. E liberdade é assim mesmo, assusta. Não troquemos, portanto, nossas ainda tímidas liberdades – conquistadas a duras penas – pela tirania de pessoas que não se importam conosco. Isso não cabe mais. Não nesse momento da nossa história.


A pergunta do título não é especulativa, ou de simples valor retórico. Vai ter golpe? Vamos respondê-la: NÃO VAI TER GOLPE. Nós não merecemos. Nós não queremos.


Optemos por nossa democracia (ainda em construção). Fiquemos ao lado do povo (ainda em luta). Trabalhemos – e conversemos – honestamente por um país melhor.







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